Sempre achei o xadrez um jogo fascinante. Não pela sua jogabilidade, e sim pela aura intelectual que gira em torno dele. Mas os anos foram passando, a vida foi seguindo seu rumo, seu “plano divino”, e comecei a ver este jogo com outros olhos, vi uma simplicidade absurda, uma normalidade cansativa, um senso comum desgastante. Vi que ele não passa de uma cópia ainda mais simplificada do nosso cotidiano.
Temos reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões, agindo como reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões. Os peões são a grande maioria, sozinhos não têm muito poder, estão ali para proteger com suas vidas a segurança de outros com mais poder, acham que vivem e têm liberdade mas são apenas peças de um tabuleiro para um plano maior, e que não é a sua felicidade. São sempre os primeiros a morrer e não podem nem pensar em recuar.
Têm os bispos, que representam como ninguém a santíssima igreja. Têm grande poder de movimentação, poderiam fazer grandes mudanças no jogo, mas andam apenas nas diagonais, posicionando-se nos cantos para ter segurança.
Têm os cavalos, andam em “L”, podem passar por cima dos outros. Poderia representar o sexo, fica escondido e quando surge uma oportunidade ganha importância que deixam outras necessidades para trás. Mas por que em “L”? Seria uma posição? E por que um cavalo? Hum… Será?
Têm as torres, que podem andar quanto quiser para frente, para trás e para os lados. Elas são como os bens materiais, as posses do rei. São altamente destrutíveis, têm fome por avançar, poderiam andar de lado, proteger mais peças, mas se o fazem é apenas para poder avançar com ainda mais agressividade.
Têm o rei, que faz o que quiser, anda para onde tem vontade, mas apenas poucas casas, talvez por comodidade. A vida é mais fácil quando se tem um exército.
E por fim, temos a rainha, a peça chave desse jogo, que poderíamos interpretar de diversas formas, mas opto por tentar lê-la pelo seu sexo, ela representa a mulher. O chamado “sexo frágil”, aquelas que realmente fazem o mundo girar, e não estou falando de uma forma romântica. Por elas reinos caíram, reis enlouqueceram, carros são vendidos e perfumes usados. Elas nos dominam, somos seus escravos, objetos manipulados. Este ser misterioso, que consegue nos colocar de joelhos e fazer-nos achar que ainda estamos no poder. O rosto angelical esconde sentimentos incompreendidos por nós, cito Nietzsche: “Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem”. E esta tradução pode trazer um equívoco quanto a palavra “bárbara”, ela é emprega aqui com o sentido de “cruel” e não de “maravilhosa”. O lobo em pele de cordeiro. Mas não quero tornar isto um discurso machista-reprimido, se elas exercem este poder sobre nós, não podemos tirá-las o mérito, pois a vida é uma escolha de pelo que estamos dispostos a sofrer.
Portanto, proteja sua rainha ou vá jogar o resta um!

