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Archive for Textos

Imaginação

Imaginacao

Canto músicas que ainda não foram compostas
Lembro de pessoas que nunca conheci
Amo pessoas que talvez nem nasceram
Falo línguas que nunca aprendi
Faço coisas que não fui ensinado
Brinco com as leis da física
Desafio deuses e demônios
Vivo em um mundo que poucos bípedes conhecem
Onde tudo isso faz sentido
e loucura é nome de doce.

Cicatrizes

Cicatrizes

Eu sempre preferi cicatrizes a tatuagens. Pode parecer meio macabro, mas elas sempre me chamaram mais atenção e despertam a minha curiosidade. Não me lembro de alguma vez ter perguntado para alguém sobre sua tatuagem, mas foram inúmeras as pessoas a qual interroguei sobre alguma marca em seu corpo, e quase sempre escutei histórias interessantes.

Me lembro uma menina muito bonita que conheci em uma festa um pouco antes de vir para a Irlanda, alguns dias depois a convidei para sair, fomos a um barzinho, estavamos naquele papo casual quando eu a pergunto sobre uma pequena cicatriz que tinha na testa. A sua primeira reação foi ficar surpresa com a pergunta e talvez um pouco constrangida (afinal não é uma pergunta muito polida para se fazer a uma menina que você conheceu a poucos dias), mas como falei antes, ela é uma menina linda e após o pequeno susto se recompôs, reassumiu a auto-confiança e me contou a história, e como a maioria, era uma boa história. Depois disto a noite foi melhorando a cada nova história, porque eu já tinha descoberto uma pequena imperfeição nela e até isso já tinha me atraído. Falar sobre a cicatriz a colocou mais segura naquele encontro, o que certamente a tornou mais confiante e disposta a falar mais abertamente, aquela cicatriz foi um gancho para outros assuntos.

Pode ser exagero, mas as pessoas com cicatrizes são mais interessantes. Elas tem ao menos uma boa história para contar sobre cada cicatriz. Talvez eu goste mais de cicatrizes porque elas são fatos, ao contrário das tatuagens que são apenas histórias contadas. Eu prefiro ver aquela cicatriz de uma fratura exposta que você ganhou após um acidente em um campeonato de motocross do que apenas uma tatuagem de uma moto que é apenas você dizendo que gosta de motocross.

Entre o ser, o ter e o representar de Aristóteles, as cicatrizes estão mais ligadas ao que você é, a sua essência, e as tatuagens ao que você representa, aquilo que você precisa mostrar para os outros. Talvez dessa idéia venha a minha preferência. A cicatriz está mais ligada a sua natureza, se você é bagunceiro, se você é radical ou até se você é apenas desastrado. Elas são histórias que não precisam ser contadas, estão alí para quem quiser ver, apenas as deixem falar.

Se eu tenho cicatriz? Sim, mas deixa que ela conta sua história em um próximo post.

Despedida

Despedida

22 de Outubro de 2003 a 30 de Abril de 2008. Quatro anos e meio depois eu estou fora da agência. Meu primeiro emprego e talvez meu último emprego no Brasil. Entrei com 18 anos e saio com quase 23 anos. Na época estava no primeiro semestre da faculdade de Publicidade e Propaganda e procurava qualquer emprego, já que não tinha experiência e mal sabia o que queria fazer. Fazer site sempre foi uma brincadeira pra mim, acho que em 1997 comprei uma revista de informática que ensinava os primeiros passos do html e aí criei meu primeiro site no bloco de notas, sobre futebol, piadas, mulheres e mais um monte de coisas, tudo na mesma página já que aquela edição não ensinava a fazer hiperlinks. Portanto um dos empregos que eu procurava era em agências de web, qualquer agência de web, até as que faziam digitação de trabalhos escolares também.

Quando dei a sorte de entrar na maior agência do Vale dos Sinos e uma das maiores do estado muita coisa estava para mudar. Ok, eu entrei sem saber o que era um LoadMovie(), mas eles não precisavam saber disso. Eu tinha curiosidade e não eram alguns comandos de AS que seriam barreiras. Eu procurava e quando não achava, perguntava, e perguntava muito, perguntava tanto que logo começaram a me chamar de garoto intervenção. Hoje sei que o nível de profissionalismo que atingi devo aos profissionais que encontrei no caminho, a paciência e as horas que gastaram comigo.

Mas nesse tempo aprendi algo muito mais importante do que design e desenvolvimento em Flash. Muito do que sou hoje, é influência dos 4 anos e meio que convivi com as diversas pessoas que passaram pela agência. Comprovei que o ambiente realmente molda o indivíduo. Idéias e atitudes que hoje possuo são claras influências de pessoas que conheci. Aprendi a apanhar, ter 5 segundos pra se sentir um merda e depois se empenhar para inverter o jogo. Aprendi que a vida não é moleza. Só seus pais passam a mão na sua cabeça quando você é mediocre. Ainda me lembro quando fiz a minha primeira criação e meu chefe chegou perguntando: “Quem foi que fez aquela merda?”. Foi horrível. Me perguntei se eu realmente conseguiria fazer aquilo todo dia. Se eu tinha “nascido” para aquilo. Se eu conseguiria aguentar um trabalho onde o que eu fiz ontem não importa mais amanhã. Seria tão mais fácil fazer um serviço burocrático e rotineiro. Mas voltei e tive que fazer algo bom. Dia após dia.

Talvez eu deveria fazer um e-mail de despedida para os meus colegas como todos fazem, mas muitos dos que deveriam recebê-lo não estão mais na agência, e não quero citar nomes também, pois todos de alguma maneira foram importantes. Durante 4 anos e meio a BRA Marketing Digital foi minha segunda casa, em alguns momentos até a primeira, devido as intermináveis madrugadas. Mas eu sempre adorei aquilo. Muitos foram mais do que colegas e se tornaram amigos. Obrigado galera, por tudo!

Mas agora parem de ler e voltem a trabalhar, porque eu vou arrumar as malas e me preparar para a próxima aventura.

Meu perfil no Orkut

Orkut

Não uso o Orkut regularmente, não gosto da exposição, entro quando me deixam um scrap e acabo perdendo um bom tempo por lá. Sou taxado como anti-social nesta rede social virtual.

Mas em uma das muitas madrugadas em claro, estava lendo este post no blog do Alex Castro, onde ele reclamava de pessoas que roubavam um de seus textos e colocavam no perfil do orkut, mesmo o texto sendo muito pessoal.

Inspirado nisso e naquela perguntinha “Quem sou eu:”, resolvi apagar o que tinha escrito no meu perfil (algo como: Não adiciono ninguém e blá blá blá…) e escrever algum texto. Como talvez me dê vontade de apagá-lo alguma hora e escrever outra coisa, resolvi postá-lo aqui para arquivo.

 


QUEM SOU EU: Se eu fosse escrever quem eu sou neste perfil, teria que ser algo muito pessoal, nada de frases feitas, músicas, poemas, teria que ser algo tão introspectivo que quando EU lesse me lembraria de quem eu sou. Falo isso porque tenho consciência de que esqueço quem realmente sou, caio em contradições, erro tentando na maioria das vezes nem acertar.

Se eu fosse escrever no meu perfil, não colocaria meus pontos fortes, colocaria o meu lado menos aceitável. Talvez para assustar a maioria das pessoas, talvez porque acho que já tenho os verdadeiros amigos e o resto seriam apenas distrações. Colocaria o quão anti-social me tornei. Não sou uma pessoa rabugenta ou mal-humorada, muito pelo contrário, mas apenas não considero mais algo proveitoso ser popular, pois notei que para isso exigia uma mediocridade na qual não estou mais disposto a me encaixar.

Talvez eu colocasse a definição da mulher perfeita para tentar achar uma, mesmo sabendo que é a imperfeição que me atrai. Colocaria que como um ser completo, não estou em busca da minha alma gêmea, alguém que fecharia um ciclo, que seria a parte que falta em mim. Não quero alguém com tal responsabilidade e não quero tal responsabilidade.

Se eu fosse escrever neste perfil, talvez eu colocasse meus objetivos pessoais para impressionar as pessoas. Colocaria que desejo ler todos os livros do mundo, conhecer todos os lugares do mundo, me relacionar com o maior número possível de culturas, velejar sem destino, escrever um romance ou uma ficção científica aclamada. Pretendo não precisar vender meu tempo para conseguir dinheiro. Pretendo ganhar um Nobel e um Oscar no mesmo ano. Fazer uma viagem espacial. Presenciar um milagre. Quase morrer. Viver um grande amor. Desiludir-me. Beber muito. Ter um filho. Ver alguém plantar uma árvore. E quem sabe um dia morrer e dessa maneira provar cientificamente que não existe nada depois da morte.

Mas este texto deveria ser mais profundo, nele eu deveria colocar aquilo que eu sinto, aquilo que me atormenta todos os dias, colocar para todos aquele que não conhecem, aquele que somente eu conheço, mas como nunca vou escrever tal texto, optei por não escrever nada neste perfil.


UPDATE: Obviamente não tanto como o do Alex Castro, mas esse texto já se espalhou pelo orkut. Até hoje (17/01/09), um ano depois de escrito, 111 pessoas já o tinham colocado em seus perfis (http://tinyurl.com/perfilorkut). Já está em domínio público, mas queria deixar registrado que fui eu quem escreveu essas linhas.

Retorno da essência

Devaneios em série

Não sou o que sou
sou o que me deixaram ser
não sou as portas que destranquei
mas as que estavam abertas e atravessei.

Se sou engraçado
foi porque assim me quiseram
se sou inteligente
sou até o ponto que me compreenderam.

Meus pensamentos de nada valem
se por outro não for pensado
burocracia subconsciente.

Nada sou além das pessoas que pude atingir
nada mais que percepções de terceiros
eles guiam meu modo de agir
eles guiam um universo inteiro.

A cada ambiente um novo eu
encenando tragédia ou comédia
em um teatro grego sem deus.

Tabuleiro cotidiano

Devaneios em série

Sempre achei o xadrez um jogo fascinante. Não pela sua jogabilidade, e sim pela aura intelectual que gira em torno dele. Mas os anos foram passando, a vida foi seguindo seu rumo, seu “plano divino”, e comecei a ver este jogo com outros olhos, vi uma simplicidade absurda, uma normalidade cansativa, um senso comum desgastante. Vi que ele não passa de uma cópia ainda mais simplificada do nosso cotidiano.

Temos reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões, agindo como reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões. Os peões são a grande maioria, sozinhos não têm muito poder, estão ali para proteger com suas vidas a segurança de outros com mais poder, acham que vivem e têm liberdade mas são apenas peças de um tabuleiro para um plano maior, e que não é a sua felicidade. São sempre os primeiros a morrer e não podem nem pensar em recuar.

Têm os bispos, que representam como ninguém a santíssima igreja. Têm grande poder de movimentação, poderiam fazer grandes mudanças no jogo, mas andam apenas nas diagonais, posicionando-se nos cantos para ter segurança.

Têm os cavalos, andam em “L”, podem passar por cima dos outros. Poderia representar o sexo, fica escondido e quando surge uma oportunidade ganha importância que deixam outras necessidades para trás. Mas por que em “L”? Seria uma posição? E por que um cavalo? Hum… Será?

Têm as torres, que podem andar quanto quiser para frente, para trás e para os lados. Elas são como os bens materiais, as posses do rei. São altamente destrutíveis, têm fome por avançar, poderiam andar de lado, proteger mais peças, mas se o fazem é apenas para poder avançar com ainda mais agressividade.

Têm o rei, que faz o que quiser, anda para onde tem vontade, mas apenas poucas casas, talvez por comodidade. A vida é mais fácil quando se tem um exército.

E por fim, temos a rainha, a peça chave desse jogo, que poderíamos interpretar de diversas formas, mas opto por tentar lê-la pelo seu sexo, ela representa a mulher. O chamado “sexo frágil”, aquelas que realmente fazem o mundo girar, e não estou falando de uma forma romântica. Por elas reinos caíram, reis enlouqueceram, carros são vendidos e perfumes usados. Elas nos dominam, somos seus escravos, objetos manipulados. Este ser misterioso, que consegue nos colocar de joelhos e fazer-nos achar que ainda estamos no poder. O rosto angelical esconde sentimentos incompreendidos por nós, cito Nietzsche: “Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem”. E esta tradução pode trazer um equívoco quanto a palavra “bárbara”, ela é emprega aqui com o sentido de “cruel” e não de “maravilhosa”. O lobo em pele de cordeiro. Mas não quero tornar isto um discurso machista-reprimido, se elas exercem este poder sobre nós, não podemos tirá-las o mérito, pois a vida é uma escolha de pelo que estamos dispostos a sofrer.

Portanto, proteja sua rainha ou vá jogar o resta um!